Laura Hartwig: vinícola boutique em Colchagua

Rodrigo Yavar, enólogo da Laura Hartwig, vinícola boutique em Colchagua, colocou 3 espumantes na minha frente. Sem rótulo, sem preço, sem nome definitivo. Dois deles tinham passado de 4 a 6 meses a 17 metros de profundidade, no Oceano Pacífico. O terceiro tinha seguido outro caminho: 18 meses em carvalho e mais 24 meses em contato com as leveduras, na segunda fermentação. “Preciso da opinião de vocês para decidir qual desses vai para o mercado”, ele disse.

Foi assim que começou a nossa visita à Laura Hartwig, uma vinícola boutique em Santa Cruz, no coração do Valle de Colchagua. E foi só o começo de uma tarde em que provamos 12 vinhos, alguns deles tão inéditos que nem o próprio enólogo da casa tinha provado antes de sentar à mesa conosco.

Laura Hartwig
Laura Hartwig aos seus 96 anos de idade. (Foto enviada pela própria vinícola).

Laura Hartwig – uma história que começa com gado e frutas, não com vinho

A Viña Laura Hartwig não nasceu como projeto vinícola. Nasceu como fazenda.

Em 1928, Osvaldo Bisquertt comprou o fundo Santa Laura, em Santa Cruz. Como era tradição na região naquela época, a propriedade vivia de cultivos anuais e criação de animais, sem nenhuma videira no horizonte.

Em 1966, Laura Bisquertt herdou o fundo do pai. Ela já era casada com Alejandro Hartwig, que administrava as terras vizinhas que ele mesmo tinha comprado entre 1966 e 1971, mantendo a mesma vocação: cultivos tradicionais e produção de leite.


Alejandro e Laura se conheceram em Santiago. E a história da vinícola poderia ter parado por aí, se não fosse por uma oferta de trabalho que mudou tudo.

Em 1971, Alejandro assumiu as operações da farmacêutica alemã Boehringer Ingelheim em Montreal, no Canadá. A família se mudou e passaria os dez anos seguintes morando fora do Chile.

Foi ali, longe das próprias terras, que o destino da Laura Hartwig começou a se desenhar.

Durante os anos no Canadá, Alejandro e Laura aproveitavam as férias para viajar para países produtores de vinho. Foi uma dessas viagens, a Bordeaux, que plantou a semente.

Alejandro provou os vinhos da região e teve uma certeza: se um dia tivesse a própria vinícola, gostaria que fosse desse estilo.

Só que, naquela época, o conceito de vinícola boutique praticamente não existia. Tudo começava grande e extremamente oneroso. A ideia de enoturismo, de uma viña pequena com identidade própria, ainda não fazia parte do imaginário do mercado chileno. Alejandro foi amadurecendo o projeto aos poucos e, quando conheceu o Napa Valley, nos Estados Unidos, viu que era possível: lá, eles já estavam fazendo exatamente isso, com turismo e vinícolas pequenas. Foi então que tomou a decisão de deixar o Canadá de vez e começar a comprar mais terras no Chile.


As primeiras parreiras, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, foram plantadas em 1978, no fundo Santa Laura.

A bodega só foi construída em 1994. E o primeiro vinho, um Cabernet Sauvignon Reserva, saiu ao mercado em 1995. Em 1997, veio a linha Edición de Familia.

Ou seja: quase 18 anos entre a primeira plantação e o primeiro vinho lançado comercialmente. Um tempo de aprendizado, ajustes e muito trabalho para chegar ao resultado que eles almejavam.

Laura e Alejandro morreram aos 96 e 94 anos, respectivamente. Hoje, são os filhos do casal que tocam a vinícola, mantendo os mesmos princípios que os pais ensinaram.

A vinícola Laura Hartwig

A fachada da bodega é uma cópia da fachada da própria casa da família. Não é força de expressão: é um projeto pensado para que quem chega ali sinta que está entrando numa casa, que está sendo recebido por uma família.

Inês trabalha na vinícola há 26 anos. Germán, o chef de bodega, está lá há 13. É esse tipo de permanência que dá à Laura Hartwig um ar de projeto de vida, não somente de negócios.

Hoje são 145 hectares que fazem parte da propriedade, sendo que 42 são plantados com Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Carménère, Malbec, Syrah e Petit Verdot, e apenas uma parte dessas uvas viram vinhos Laura Hartwig, o restante é vendido para outros produtores (cerca de 20 hectares).

Uma das particularidades da Laura Hartwig é ter um vinho 100% Petit Verdot, e isso não é muito comum, você já provou um vinho 100% Petit Verdot?

O Petit Verdot é uma casta difícil de conduzir. A folha é grande e, se não for controlada, a planta vira literalmente uma floresta. É preciso podar a cada duas semanas, cortando boa parte da folhagem para garantir sol suficiente nas uvas, mas sem exagerar, porque as uvas também precisam de um pouco de sombra.

A vinícola também não tem medo de testar e corrigir rota. Já plantaram Merlot no passado e decidiram parar. Hoje trabalham com as uvas que mencionei acima, mais a Chardonnay.

O Sauvignon Blanc que usam vem de outro valle, mais adequado ao perfil da uva. E o Chardonnay, que recebe bastante sol na propriedade, desenvolve uma casca com o que a equipe chama de “tostado noble“, condição ideal para fazer vinho laranja, com mais tanino e mais presença em boca. Esse é um dos projetos do enólogo, criar um vinho diferenciado dos vinhos laranja que estamos acostumados a ver por aí. Antes, eles vendiam toda a produção de Chardonnay, e ele disse, estamos desperdiçando essa riqueza que temos aqui, vamos produzir algo que valha a pena ser provado. 

A Laura Hartwig maneja cerca de 300 barricas, entre uso de 1 a 4 vezes.

A colheita, aliás, é toda manual: cerca de 150 mil quilos de uva por ano.

A visita na vinícola boutique – Laura Hartwig no Vale do Colchagua

Chegamos à Laura Hartwig em pleno inverno, mas naquele dia o sol e o calor destoavam completamente do resto da semana

Fomos recebidos por Matías Hartwig (aqui vemos novamente o projeto de vinícola familiar que eles prezam), Felipe, Valéria e Fran, da equipe de marketing, e pelo enólogo Rodrigo Yavar, e preciso registrar o acolhimento caloroso e o cuidado em cada detalhe, do início ao fim da visita. 

E o primeiro brinde já veio fora do roteiro clássico de vinícola: assim que chegamos, fomos recebidos com uma taça da Grape Ale Malbec Berliner Weisse, o projeto que a Laura Hartwig mantém em parceria com cervejarias artesanais chilenas, misturando técnica cervejeira com mosto de uva premium. É uma sour leve e ácida na base, mas o mosto de Malbec traz um contraponto frutado que suaviza a acidez sem tirar o frescor. Não é vinho, não é bem cerveja. É outra coisa, e funcionou perfeitamente para abrir aquela manhã, ainda mais com aquele sol inesperado de inverno.

E com a taça em mãos, fomos percorrer a propriedade e conhecer um pouco mais sobre a história que aqui estou contando.

Voltamos a casa principal e fomos recepcionados pelo próprio dono da vinícola, o filho mais novo do casal fundador, que tem o mesmo nome do pai, Alejandro Hartwig. Nos sentamos na varanda da casa, com vista para as parreiras de Petit Verdot e conversamos sobre o Chile, sobre o Brasil, sobre vinhos, viagens, projetos. Que alegria poder  conversar com pessoas apaixonadas pelo mundo e pelo que fazem. 

Dali, seguimos para os vinhos, 12 rótulos ao todo, incluindo versões que ainda nem chegaram ao mercado.

Alejandro Hartwig - Julia JASPER - Valle de Colchagua - Chile
Júlia Jasper e Alejandro Hartwig.
Degustação e vinhos da vinícola Laura Hartwig

Provamos o Edición de Familia Tinto 2022, um blend de Petit Verdot, Cabernet Sauvignon, Malbec e Cabernet Franc, com 20 meses de crianza em barrica francesa nova e de segundo uso. Cada uva cumpre um papel nesse blend: o Petit Verdot dá corpo, cor e aroma perfumado; o Cabernet Franc entra com tanino e estrutura; o Cabernet Sauvignon traz acidez, vivacidade e a fruta que garante longevidade; o Malbec fecha com sedosidade e aromas florais. A proporção de cada casta muda a cada safra, dependendo se o ano foi mais frio (o que favorece o Cabernet Sauvignon) ou mais quente (o que favorece o Petit Verdot).

Também provamos o Laura 2019, ícone da casa: um blend das quatro castas bordelesas favoritas de cada membro da família, com 24 meses em barrica francesa nova e um processo de tripla seleção: por fileira no vinhedo, por lote de fermentação e, por fim, barrica por barrica. Depois de engarrafado, ele ainda descansa mais de quatro anos na adega antes de sair para o mercado. Produção limitada, só em safras excepcionais.

Do lado dos brancos e laranjas, o Vino Naranjo, 100% Chardonnay, passa 4 meses em contato com as cascas em barricas francesas de 500 litros e mais 4 meses em ovo de concreto. É um vinho gastronômico que rompe o script clássico, com textura e taninos que a maioria dos brancos não tem.

Provamos ainda a linha Selección del Viticultor, com versões varietais de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Petit Verdot.

Laura Hartwig e seus vinhos no fundo do mar

Um ano de envelhecimento no fundo do Oceano Pacífico equivale a cerca de três anos de envelhecimento tradicional. A pressão constante, a escuridão total, a temperatura estável e o movimento das correntes marítimas aceleram e transformam a forma como o vinho evolui, algo que, começa a aparecer nitidamente na taça já nos primeiros meses.

Provamos o espumante Flor de la Pluma, método tradicional, 100% Chardonnay, colheita 2023, em três versões: a original, uma com 4 meses submersa no mar e outra com 6 meses. Também provamos uma versão com 18 meses em barrica somados a 24 meses em contato com as leveduras.

O nome Flor de la Pluma, aliás, é uma homenagem à pérgola, planta símbolo dos jardins chilenos e ponto de encontro e convivência em família. A ideia é que cada bolha carregue um pouco desse sentimento: amor, longevidade, amizade.

Provamos também duas garrafas do Edición de Familia que tinham passado uma temporada nas profundezas do Pacífico – quatro e seis meses. Rodrigo Yavar, o enólogo, estava provando aquele vinho envelhecido por seis meses pela primeira vez, junto com a gente.

Momentos que com certeza guardaremos. Ver a percepção do enólogo, em primeira mão, fazendo suas analises para um vinho que ainda não data para chegar ao mercado.

O Valle de Colchagua e a Viña Laura Hartwig

A Viña Laura Hartwig, vinícola boutique, fica na comuna de Santa Cruz, no coração do Valle de Colchagua, a cerca de 130 km a sudoeste de Santiago, na Região de O’Higgins.

O que torna Colchagua um dos valles mais premiados do Chile é justamente o clima: mediterrâneo, com baixa umidade, influenciado pela fria Corrente de Humboldt vinda do Pacífico de um lado e pela brisa da Cordilheira dos Andes do outro. Durante a maturação da uva, entre outubro e abril, a variação térmica pode chegar a 22°C num único dia, o que faz a uva amadurecer devagar, acumulando cor, aroma e sabor.

Os solos do fundo Santa Laura se formaram por sedimentação lacustre lenta: são solos planos e profundos, com textura franco-argilosa na superfície e mais arenosa em profundidade. A vinícola pratica uma viticultura de baixo impacto, e é o próprio Alejandro Hartwig quem ainda acompanha pessoalmente o cuidado das parras, ajustando orientação, densidade e irrigação depois de décadas de tentativa e erro.

Em 2005, a região recebeu o prêmio de “Melhor Região Vitivinícola do Ano” da revista Wine Enthusiast. A vinícola faz parte da Ruta del Vino Valle de Colchagua, fundada em 1996, e do MOVI (Movimiento de Viñateros Independientes) desde 2014.

Visita Laura Hartwig - Vinícola no Vale do Colchagua
Vinhedo de Petit Verdot.
Como visitar a Vinícola Laura Hartwig

Se você quiser viver experiências e conhecer mais sobre os vinhos e a história, a vinícola oferece três roteiros diferentes:

Tour Connoisseur (90 minutos): começa com uma caminhada pelos vinhedos, contando a história da vinícola e do Valle de Colchagua, segue para a bodega e a sala de barricas, e termina com a degustação de 4 vinhos, o ícone Laura, o super premium Edición de Familia e mais dois à escolha entre as linhas Selección del Viticultor, Single Vineyard e Laluca, acompanhados de uma tábua de queijos.

Tour Premium (70 minutos): segue a mesma caminhada e explicação do processo de vinificação, com degustação de 3 vinhos (incluindo o Edición de Família) mais dois à escolha entre as mesmas linhas, também com tábua de queijos de cortesia.

Tour Vertical Laura: uma experiência para quem quer entender a evolução de um vinho ícone no tempo, com degustação vertical das safras 2017, 2018 e 2019 do vinho Laura, taça de boas-vindas do espumante Camelia e uma tábua individual com 4 queijos de cabra premium (fresco, tierno, maduro e curado) da produtora local Herencia de Campo.


Todos esses roteiros estão disponíveis através da nossa agência de curadoria de experiências enoturísticas, a Terroir Collection. Se você quiser reservar (ou incluir a Laura Hartwig num roteiro maior pelos vales chilenos), me chama pelo e-mail contato@conhecendoomundo.com, pelo Instagram @juliajasper_ ou direto pelo @terroircollection. Cuido de tudo, do agendamento à logística do seu dia.

Quer conhecer mais sobre a vinícola antes de decidir? O site oficial da Laura Hartwig tem todos os detalhes sobre os vinhos e a propriedade. E se quiser ver essa visita em detalhes, como aconteceu na hora, salvei os stories completos desse dia nos destaques do meu Instagram e no da Terroir Collection, junto com outras postagens sobre vinhos e vinícolas do Chile.

A Laura Hartwig tem planos de abrir uma cafeteria e um restaurante próprios. Por enquanto, eles já fazem eventos especiais mediante reserva antecipada, para quem quer uma experiência diferenciada, com um chef preparando algo especial só para o seu grupo.

Vale lembrar que todas essas experiências pedem reserva antecipada. Mas se você estiver passando por Santa Cruz sem nada agendado e quiser só uma taça de vinho na varanda da casa principal, admirando a vista dos vinhedos, é bem-vindo a desfrutar de vinhos por taça, sem reserva prévia.

Saúde, amor e trilhão em euros!


Perguntas frequentes sobre a Viña Laura Hartwig

A Viña Laura Hartwig é uma vinícola boutique? Sim. É um projeto familiar, com produção limitada (entre 10 e 12 mil caixas por ano) e gestão feita diretamente pelos filhos de Laura e Alejandro Hartwig, os fundadores.

O que é o vinho envelhecido no fundo do mar da Laura Hartwig? É um experimento em que vinhos e espumantes ainda não lançados são submersos no Oceano Pacífico, a 17 metros de profundidade, por períodos de 4 a 6 meses. A pressão e a temperatura constante do mar aceleram a evolução do vinho.

Qual é o vinho mais famoso da Laura Hartwig? O Laura, blend ícone da casa que reúne Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Malbec e Petit Verdot, com produção limitada a safras excepcionais.

A Laura Hartwig produz vinho 100% Petit Verdot? Sim, é uma das poucas vinícolas do Chile a produzir um vinho varietal 100% Petit Verdot, uma casta considerada difícil de conduzir no vinhedo.

Onde fica o Valle de Colchagua? Fica na Região de O’Higgins, no Chile, a cerca de duas horas e trinta minutos de Santiago, e é considerado um dos destinos vitivinícolas mais importantes do mundo.


Aqui no blog, na seção Brinde ao Vinho, tem muito mais sobre enoturismo no Chile e no mundo.

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