Vinícola Clos Apalta – Valle de Colchagua – Chile
Videiras plantadas em 1907. Uma bodega escavada sete andares dentro da montanha. E, na mesa de degustação, duas taças do mesmo vinho separadas por dez anos. Assim foi um pouco da minha visita à vinícola Clos Apalta, no coração do Valle de Colchagua.
Moro no Chile há alguns anos e já visitei mais de 70 vinícolas pelo mundo. Mesmo assim, poucas vezes senti tão claramente que cada detalhe de um lugar existe para servir ao vinho. Aqui, do solo à arquitetura, tudo tem um porquê.
Chegamos às 10h da manhã, com a luz ainda suave sobre o vale, e fomos recebidos para o Tour & Tasting com uma taça de rosé e vista para as parreiras. Ao longo de algumas horas, percorremos o vinhedo, descemos todos os andares da bodega e terminamos provando cinco vinhos que contam, juntos, a história desta casa.


O Vale de Apalta: o terroir que faz o Clos Apalta
A primeira coisa que impressiona na chegada é a paisagem. O vinhedo tem 60 hectares desenhados em forma de anfiteatro. De um lado corre o rio Tinguiririca; do outro, os cerros da Cordilheira da Costa abraçam as videiras como uma ferradura.
Essa geografia explica muito do que sentimos depois na taça. Por exemplo, o vinhedo é voltado majoritariamente para o sudeste, algo raro em Colchagua. Assim, as encostas protegem as uvas do sol mais forte da tarde, e a maturação acontece de forma lenta e equilibrada.
O clima também ajuda. Os verões são longos e secos, as chuvas se concentram no inverno, e a diferença de temperatura entre o dia e a noite é grande. É essa oscilação que dá aos vinhos a cor e os aromas intenss e profundos que eles têm.
O solo dos vinhedos de Clos Apalta é um verdadeiro mosaico: granito em diferentes estágios de decomposição, argila e rocha fragmentada. Além disso, a argila funciona como um reservatório natural de água, e por isso as videiras antigas conseguem viver sem irrigação.
As parcelas ficam entre 150 e 300 metros de altitude, algumas nas encostas, outras na parte plana. Cada uma oferece uma expressão diferente da uva e, no final, todas se encontram na assemblage.
Em 2018, essa singularidade ganhou reconhecimento oficial com a criação da DO Apalta.



Videiras centenárias de pé franco: o tesouro vivo do Clos Apalta
Para quem ama o mundo dos vinhos e as milhares de histórias, caminhar entre videiras tão antigas, é emocionante.
A videira que conheci de perto foi plantada em 1907. Tem quase 120 anos. As mudas chegaram da França no fim do século XIX, e hoje o vinhedo guarda cerca de 40 hectares de videiras de pé franco, ou seja, que crescem com as próprias raízes, sem enxerto.
Para entender por que isso é tão raro, é preciso voltar ao século XIX. A filoxera é um pequeno inseto que se alimenta das raízes da videira e, a partir da década de 1860, devastou a maior parte dos vinhedos da Europa. A solução encontrada foi enxertar as variedades europeias sobre raízes de videiras americanas, resistentes à praga. Desde então, quase todas as videiras do mundo crescem sobre uma raiz “emprestada”.
O Chile escapou dessa história. Protegido pela Cordilheira dos Andes, pelo Oceano Pacífico e pelo Deserto do Atacama, o país nunca foi atingido pela filoxera. Por isso, aqui as videiras ainda podem crescer como antigamente, sobre as próprias raízes: em francês, franc de pied; em espanhol, pie franco. Encostar a mão naquele tronco retorcido é tocar um pedaço da história do vinho que o resto do mundo perdeu.
Uma videira velha produz pouca uva. Porém, cada cacho carrega uma concentração e uma profundidade que só o tempo dá. É dessas videiras, principalmente de Carménère e Cabernet Sauvignon, que nasce o Clos Apalta. Provar este vinho é provar mais de um século de história.




A filosofia do Clos Apalta: tudo começa no vinhedo
Jacques Begarie, que foi diretor técnico do Clos Apalta, tem uma frase que resume bem o espírito da casa: se a uva não está boa no vinhedo, não há milagre na adega.
Essa ideia aparece em todo lugar. Desde 2009, o vinhedo é certificado como orgânico. O composto que alimenta o solo é feito com os próprios resíduos vegetais das videiras, e a família protege uma grande área de vegetação nativa chilena nas encostas ao redor.
Na vinícola, o cuidado continua. A colheita é manual, cada parcela é vinificada separadamente e o vinho se movimenta apenas pela gravidade, sem bombas. Desse modo, a uva sofre o mínimo possível de interferência, e o terroir aparece com mais pureza na taça.
Por trás dessas decisões está uma equipe que trabalha junta há muitos anos. A enóloga e diretora técnica Andrea León conhece cada parcela deste vinhedo desde 2005. Além dela, o francês Michel Rolland, um dos enólogos mais influentes do mundo, acompanha pessoalmente a produção desde a primeira safra, e a vinícola Clos Apalta é a única viña que ele assessora no Chile.
Por dentro da bodega: sete andares guiados pela gravidade
Do lado de fora, você quase não vê a bodega. Apenas 24 vigas de madeira se erguem em direção ao céu, formando uma estrutura curva que lembra um ninho. Foi nessa imagem que o arquiteto chileno se inspirou: uma bodega pousada na encosta, abrigando o vinho dentro da montanha.
O projeto é do arquiteto chileno Roberto Benavente Riquelme e levou seis anos para ficar pronto, de 1999 a 2005. Ao todo, são 4.600 metros quadrados e sete andares escavados na rocha, chegando a 35 metros de profundidade. As grandes pedras encontradas durante a escavação viraram o piso da própria bodega.




Descendo andar por andar na Clos Apalta
A visita acompanha o caminho do vinho, de cima para baixo. A uva chega no andar mais alto e vai descendo apenas pela gravidade, como a água descendo a montanha.
Num dos andares estão as 21 cubas de carvalho francês, dispostas em círculo, cada uma com 7.500 litros. É ali que cada parcela do vinhedo fermenta separadamente, preservando a personalidade de cada pedacinho de terra.
E isso não é nada comum. A maioria das vinícolas faz a fermentação em tanques de aço inoxidável, que são mais baratos, fáceis de limpar e neutros: não interferem no vinho. Fermentar em cubas de carvalho francês, por outro lado, custa bem mais caro e exige muito mais cuidado. Em compensação, a madeira trabalha com o vinho desde o primeiro dia, deixando passar pequenas quantidades de oxigênio que ajudam a suavizar os taninos e a integrar melhor a fruta e a textura. É uma escolha de quem pensa no vinho a longo prazo.
Mais abaixo, as barricas descansam em salas silenciosas, frescas e pouco iluminadas. Confesso que, a cada andar, eu me impressionava mais. Uma sala mais linda que a outra.
Na sala de primeiro ano, os vinhos de cada parcela ainda descansam separados, em barricas de 225 litros, todas de carvalho francês. Quando passei por ali, quem repousava era a safra 2026, um vinho que só vai chegar ao mercado em 2029.
Um andar mais abaixo ainda fica a sala de segundo ano. Ali, os vinhos já foram mesclados e o blend segue amadurecendo. É um ano em cada sala e, depois, mais um ano em garrafa antes de deixar a vinícola. Paciência é parte da receita.






A adega particular da família Lapostolle em Clos Apalta
No último andar, a 35 metros abaixo da terra, fica a vinoteca da família Bournet-Lapostolle. Para chegar até ela, descemos por uma escada que sai de uma mesa de degustação de vidro.
Ali, as garrafas mais especiais repousam no silêncio e no coração da montanha.
Entre essas garrafas está a história da casa. A safra de 1997, a primeira do Clos Apalta, ainda com o rótulo Lapostolle: só depois o Clos Apalta se tornou uma vinícola própria, com identidade e bodega exclusivas.
Os grandes formatos também chamam a atenção. Há Magnums de 1,5 litro, Double Magnums de 3 litros, formato que na Champagne recebe o nome de Jeroboão, e até uma Primat, também chamada de Golias, com 27 litros, o equivalente a 36 garrafas comuns. Quanto maior a garrafa, mais lenta e equilibrada é a evolução do vinho.
Curiosidade: os nomes dessas garrafas vêm de reis e personagens bíblicos. O Jeroboão, com o equivalente a 4 garrafas, homenageia o primeiro rei do Reino de Israel, no século 10 a.C., conhecido por “aumentar o povo”, e por isso simboliza abundância e prosperidade. Já a Primat, ou Golias, evoca força e resistência: na versão de champagne, mede 100 cm por 26 cm e pesa cerca de 65 kg.
A arquitetura dessa sala é lindíssima. Protegidas pela própria montanha, as garrafas envelhecem no escuro, no silêncio e numa temperatura estável o ano inteiro. É difícil imaginar um lugar melhor para um grande vinho esperar o seu tempo.




Degustação na vinícola Clos Apalta
De volta à superfície, chegou a hora de provar. Antes de falar de cada vinho, uma explicação simples ajuda a entender as diferenças entre eles.
A barrica nova, de primeiro uso, deixa mais marca de madeira e dá mais estrutura ao vinho. Já a barrica usada é mais delicada e deixa a fruta aparecer. Portanto, quanto mais barrica nova e mais tempo de envelhecimento, mais anos o vinho aguenta guardado.
Outro ponto chamou minha atenção: enquanto a maioria dos grandes ícones chilenos tem base de Cabernet Sauvignon, aqui a protagonista é a Carménère, a uva que virou símbolo do Chile, acompanhada de Merlot, Cabernet Sauvignon e Petit Verdot.
- Prelude 2023
O primeiro vinho passou 17 meses envelhecendo, sendo 80% em barricas de segundo e terceiro uso e 20% em barricas novas. É o mais leve e fresco dos quatro, pensado para ser aproveitado nos próximos 5 a 10 anos.
Eu achei esse vinho incrível para “qualquer momento”.
Para mim, o Prelude é o vinho que abre as portas para o universo do Clos Apalta. É fácil de beber, com a fruta em primeiro plano e taninos macios, mas já mostra a elegância e o caráter do Vale de Apalta. Tanto que ele está entre as minhas indicações no guia de vinhos chilenos disponíveis no Brasil, na faixa de R$ 200 a R$ 300.
- Le Petit Clos 2022
O Le Petit Clos é feito com as videiras mais jovens do vinhedo. Foram 19 meses de envelhecimento, com 30% em barrica nova e 70% em barrica de segundo uso. Ele já tem mais corpo e pode ser guardado por 10 a 15 anos.
Na boca, é um vinho de textura firme e vigorosa, com taninos bem presentes e marcados. Ainda jovem, ele mostra força e estrutura, e por isso ganha muito com alguns anos de garrafa ou com uma boa decantação antes de servir.
- Clos Apalta 2022
Então chegou o grande vinho da casa. O Clos Apalta 2022 passou 24 meses em barrica, sendo 85% de primeiro uso e 15% de segundo uso. Lembra das 24 vigas lá fora? Uma para cada mês. É um vinho para guardar por mais de 20 anos.
A safra 2022 é um corte de 68% Carménère, 22% Cabernet Sauvignon e 10% Merlot. Foi um ano mais fresco no Chile, e o resultado é um Clos Apalta mais contido e elegante, com a Carménère aparecendo de forma clara e precisa. A crítica internacional recebeu muito bem esta safra: 99 pontos de James Suckling, 99 de Jeb Dunnuck e 98 da Vinous.
Na taça, a cor é profunda, entre o rubi e o violeta. No nariz aparecem frutas negras e azuis, como amora e mirtilo. Na boca, os taninos são finos e polidos, e o final é longo, daqueles que não querem ir embora. É um vinho que já impressiona hoje, mas que foi feito para atravessar décadas.
- Clos Apalta 2012
Para fechar, um presente: o Clos Apalta 2012, envelhecido em barricas 100% novas.
Poder colocar as safras 2022 e 2012 lado a lado é uma maneira de descobrir a ação do tempo. O mesmo vinho, o mesmo vinhedo, a mesma família. A única diferença são dez anos. Na taça, a cor do 2012 já mostra essa evolução, com a borda mais suave, puxando para um tom de tijolo.
É por isso que se diz que um grande vinho não está pronto quando sai da vinícola. Ele continua vivendo.
- Gavilea o rosé do Vale de Apalta
Nem só de tintos ícones vive a casa. Durante a visita, também conheci o Gavilea, um rosé no estilo da Provence, a região francesa que tanto inspira a família.
A produção é limitadíssima, com cerca de 2.500 garrafas por ano. As uvas são as primeiras a serem colhidas na vinícola, para preservar o frescor. Depois, o vinho descansa em ovos de concreto e em barricas grandes, que dão textura sem marcar de madeira.
Até pouco tempo, ele só era vendido na própria vinícola. Só recentemente começou a ser exportado, e mesmo assim em pequenas quantidades. Um quase segredo de Apalta, que eu amei conhecer.



Lapostolle e Clos Apalta
A história do Clos Apalta começa muito antes do Chile. Em 1827, Jean-Baptiste Lapostolle fundou uma destilaria de licores na França, perto de Versalhes. Décadas depois, em 1880, Louis-Alexandre Marnier Lapostolle misturou conhaque com laranjas amargas e criou o Grand Marnier.
Curiosidade: segundo a família, quem provou a criação e sugeriu o nome foi César Ritz, o hoteleiro que fundou o lendário Hotel Ritz de Paris. Por coincidência, eu tinha acabado de ler um livro sobre a história do hotel dias antes da visita.
E há um detalhe que pouca gente percebe: o conhaque é feito de vinho destilado. Ou seja, esta família sempre teve a uva no sangue.
Em 1994, Alexandra Marnier Lapostolle, bisneta do criador do Grand Marnier, chegou ao Chile com o marido, Cyril de Bournet. Depois de meses de pesquisa, eles encontraram o Vale de Apalta, e a primeira safra do Clos Apalta veio em 1997.
Anos depois, em 2016, o Grand Marnier foi vendido ao grupo Campari. A vinícola chilena entrou no negócio, mas a família logo a recomprou. O licor ficou para trás; o vinho, eles quiseram manter.
Hoje, quem lidera a casa é Charles-Henri de Bournet Marnier Lapostolle, a sétima geração da família.





Por que o Clos Apalta é um ícone do vinho chileno
O Chile tem um grupo pequeno de vinhos que a crítica internacional coloca sempre no topo. E o Clos Apalta faz parte desse crème de la crème.
O Clos Apalta 2005 foi o primeiro vinho da América do Sul eleito o nº 1 do mundo no Top 100 da revista Wine Spectator. Além disso, o crítico James Suckling concedeu 100 pontos ao Clos Apalta nas safras 2014, 2015 e 2017.
Como visitar a vinícola Clos Apalta
A vinícola Clos Apalta fica no Vale de Apalta, em Colchagua, a cerca de 170 km de Santiago.
A experiência que vivi foi o Tour & Tasting, que inclui o percurso pelo vinhedo, a descida por todos os andares da bodega e a degustação.
As visitas acontecem apenas com reserva antecipada, e a capacidade é limitada, principalmente na alta temporada. Por isso, vale planejar com antecedência.
Para quem quer viver o vale com mais calma, é possível se hospedar dentro da propriedade, no Clos Apalta Residence. Membro da Relais & Châteaux desde 2011, o hotel tem apenas dez acomodações, entre villas e casitas espalhadas pela encosta, cercadas de vinhedos e mata nativa, além de restaurante próprio.
Quer visitar a vinícola Clos Apalta? Pela Terroir Collection, eu monto roteiros personalizados de enoturismo no Chile, incluindo vinícolas ícones como esta, com toda a logística organizada para você.
Quer saber mais sobre essa experiência? No meu Instagram, @juliajasper_, e no perfil da Terroir Collection, @terroircollection, a experiência no Clos Apalta está salva nos destaques, além de outras publicações contando cada momento: a descida pela bodega, as videiras centenárias e a degustação.
Combine com outras vinícolas
Colchagua é um dos vales mais completos do Chile para quem ama vinho. Aqui no blog, você encontra várias vinícolas chilenas que já visitei, de Colchagua e de outros vales, com a minha experiência em cada uma delas: as visitas, as degustações e as dicas para montar o seu roteiro.
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Perguntas frequentes sobre a vinícola Clos Apalta
Onde fica a vinícola Clos Apalta? A vinícola Clos Apalta fica no Vale de Apalta, uma sub-região do Vale de Colchagua, no Chile, a cerca de 170 km ao sul de Santiago.
Quem é o dono do Clos Apalta? O Clos Apalta pertence à família Bournet-Lapostolle, descendente dos criadores do licor Grand Marnier. Hoje a vinícola é liderada por Charles-Henri de Bournet Marnier Lapostolle, da sétima geração.
Qual é a uva principal do Clos Apalta? A base é a Carménère, acompanhada de Merlot, Cabernet Sauvignon e Petit Verdot. Parte das uvas vem de videiras de pé franco com mais de cem anos.
É possível visitar a vinícola Clos Apalta? Sim, mas apenas com reserva antecipada. A visita inclui o vinhedo, a bodega de sete andares e a degustação. Também é possível incluí-la num roteiro personalizado pela Terroir Collection.
Qual a diferença entre o Clos Apalta e o Le Petit Clos? O Clos Apalta é o vinho ícone da casa, com 24 meses em barrica, quase toda nova. O Le Petit Clos vem das videiras mais jovens do mesmo vinhedo, com menos barrica nova e um perfil mais acessível.
Lapostolle e Clos Apalta são a mesma vinícola? Não, mas fazem parte da mesma família. A Lapostolle foi fundada em 1994 e fica em Cunaco, Santa Cruz, com uma linha mais ampla de vinhos. O Clos Apalta nasceu dentro dela: a primeira safra, de 1997, ainda saiu com o rótulo Lapostolle. Com o tempo, ganhou bodega própria, inaugurada em 2005, a cerca de 7 km dali, no Vale de Apalta, dedicada apenas aos vinhos ícones. Hoje as duas pertencem ao grupo Domaines Bournet-Lapostolle.
Aqui no blog, na seção Brinde ao Vinho, tem muito mais sobre enoturismo no Chile e no mundo.





