Viñamar: a vinícola dos espumantes no Valle de Casablanca – Chile
A Viñamar, no Valle de Casablanca, cuja sede é conhecida como Casa Viñamar, nasceu jovem, lançou suas primeiras garrafas de espumante em 2010 e, em pouco mais de uma década, virou uma das casas mais fotografadas do Valle de Casablanca. Fui até lá para conhecer um pouco mais sobre essa história, visitar a casona principal da Viñamar e degustar o portfólio de espumantes da vinícola chilena.

Valle de Casablanca – Chile
Na classificação oficial dos vinhos chilenos, a grande Região Vitícola do Aconcágua se divide em três sub-regiões independentes: o Valle de Aconcágua, o Valle de Casablanca e o Valle de San Antonio. Casablanca é uma sub-região com uma localização estratégica, a meio caminho entre Santiago e as cidades de Valparaíso e Viña del Mar. Passaram-se quase 40 anos desde que as primeiras videiras foram plantadas na região, e hoje Casablanca já tem uma oferta consistente de vinhos e espumantes, vinícolas abertas ao turismo e restaurantes que constroem a gastronomia em cima de produtos locais.
A cerca de 22 km em linha reta do oceano, o vale recebe a brisa fria do Pacífico todos os dias. Ao mesmo tempo, está cercado de cerros e montanhas, que seguram parte dessa influência marítima e criam um microclima híbrido: proximidade com o mar, mas com características de interior. Esse clima frio permite a maturação correta de uvas brancas como Sauvignon Blanc e Chardonnay, mas também sustenta tintas mais frescas, como Pinot Noir e Syrah. Não é à toa que Casablanca é mundialmente reconhecida tanto pelos seus brancos quanto por esses tintos de perfil mais leve.
Junto com Valparaíso, o Valle de Casablanca integra o Great Wine Capitals, uma rede mundial que reúne cidades produtoras vitivinícolas de destaque, promovendo turismo, cultura e intercâmbio comercial entre elas. Em 2013, essa mesma região foi reconhecida como Capital Mundial do Vinho, sendo a única do Chile a fazer parte dessa rede.







Viñamar no Valle de Casablanca: a vinícola dos espumantes
A história da própria Casa Viñamar tem uma curiosidade que poucos visitantes conhecem: o edifício, (a casona), de estilo marroquino, tem apenas 21 anos, embora a arquitetura engane e pareça bem mais antiga. Ele começou como um hotel boutique, com apenas 10 quartos. Hoje, é a casa-sede da Viñamar, parte do grupo VSPT (o mesmo grupo por trás da Viña Tarapacá e da San Pedro), e 100% dedicada à produção de espumantes.
A matéria-prima para os espumantes vem de aproximadamente 90 hectares de vinhedos próprios, plantados com Sauvignon Blanc, Chardonnay e Pinot Gris. Essas uvas seguem depois para a Tarapacá, onde acontece todo o processo de produção e vinificação.
Leia sobre a Vinícola Tarapacá, onde ocorre o processo de produção
Vinícola Tarapacá: 150 anos de história
Um dos maiores riscos climáticos da região de Casablanca é o clima ainda bastante frio no início da primavera, já que a geada pode matar os primeiros brotos que, mais adiante, se tornariam as uvas da safra. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, já visitei várias vinícolas que enfrentam essa mesma preocupação com o frio do sul do Brasil, e diversas delas recorrem a fogueiras no meio dos vinhedos para aumentar a temperatura e não perder toda a brotação daquele ano. Aqui no Chile, porém, essa prática está totalmente fora de cogitação: o país lida anualmente com um número grande de incêndios, e criar fogo no meio do vinhedo simplesmente não é uma opção.
Por isso, achei bem interessante conhecer os diferentes métodos que a Viñamar usa para proteger os vinhedos da geada de primavera. Existem ventiladores que movimentam o ar para evitar o acúmulo de frio nas partes baixas do vinhedo, um sistema de aspersão de água que forma uma espécie de iglu de gelo ao redor dos brotos (protegendo a parte interna da planta da temperatura externa) e, em outros casos, helicópteros sobrevoando os vinhedos para misturar as massas de ar frio e quente.






O solo dos vinhedos de Casablanca – Chile
O tipo de solo em Casablanca também explica muito sobre a qualidade das uvas. Por ser um solo mais profundo, as raízes das videiras precisam se fixar muitos metros abaixo da superfície em busca de água e nutrientes, o que naturalmente limita a produtividade e concentra sabor nas uvas.
A composição mineral desse solo tem grande quantidade de granito decomposto, com trechos de argila e textura que varia de fina a arenosa. É um solo altamente permeável, com excelente capacidade de drenagem, especialmente nas partes mais altas do terreno, e apresenta baixa retenção de água nas camadas arenosas, o que limita o vigor das videiras, reduz o rendimento e concentra ainda mais os aromas e sabores nas uvas. Some-se a isso o fato de ser um solo pobre em matéria orgânica, e o resultado é uma videira forçada a buscar nutrientes e minerais cada vez mais fundo, exatamente o tipo de “esforço” que costuma render as uvas mais interessantes.
A irrigação, aliás, depende quase inteiramente da água da chuva. A vinícola armazena essa água em poços de reserva e a distribui pelas videiras com sistema de gotejamento (goteo), otimizando cada gota em uma região onde a água é um recurso precioso.
Visita e degustação na Vinícola Viñamar
Antes da degustação, caminhamos pelos vinhedos com a Conie, guia da Casa Viñamar e recém-eleita a melhor guia do ano. Depois do passeio pela propriedade, foi ela quem conduziu todo o serviço da degustação, apresentada pela enóloga Francesca Perazzo.
Francesca é agrônoma especializada em enologia e responsável por todo o portfólio de espumantes da Viñamar. É sempre muito enriquecedor poder ouvir da própria enóloga o que ela estava pensando, algumas decisões que precisaram ser tomadas, o que ela buscava atingir, e tantas outras notas e curiosidades que só quem cria o vinho consegue compartilhar.
Provamos nove espumantes ao longo da degustação. Usamos taças diferentes, entre a taça flute e a taça de vinho branco, para sentir como o formato muda a percepção das borbulhas e dos aromas.





Um destaque de todo o portfólio (12 produtos ao todo) é o Método Tradicional, o ícone da casa, elaborado pelo método Champenoise, com leveduras selecionadas vindas da própria região de Champagne, na França. É um espumante amarelo pálido com reflexos dourados, bolhas suaves e persistentes, nariz frutal com notas de bizcocho e baunilha, com boca fresca e cremosa.
O restante do portfólio é produzido pelo método Charmat, com fermentação em tanques de aço inoxidável em vez de garrafa. É um processo mais rápido e escalável, que resulta em espumantes de perfil mais frutado e versátil, pensados para o consumo do dia a dia e para agradar um público mais amplo, o que explica por que respondem pela maior parte do volume da casa. Foi nessa linha que provei o Brut Nature, a variedade mais seca do portfólio, produzida especificamente pelo Método Charmat Largo, no qual a segunda fermentação acontece nesses tanques por mais de seis meses, um processo mais longo que entrega suavidade sem perder frescor. Confesso que nunca tinha provado um Brut Nature feito por Charmat, e o resultado me surpreendeu: seco, elegante, com equilíbrio entre acidez e persistência.
Um detalhe que acho ótimo do ponto de vista de quem está começando no mundo do vinho: todas as garrafas trazem uma escala visual, tipo “bolinhas”, indicando se aquele espumante é mais seco ou mais doce. É simples, mas resolve uma dúvida real de quem ainda não conhece os termos técnicos.
A produção também varia bastante de um rótulo para outro. O Charmat Nature, por exemplo, gira em torno de 9.800 litros, enquanto o espumante produzido pelo processo Champenoise, fica próximo dos 10.000 litros. Já o Brut, o mais vendido da casa, é produzido em uma escala muito maior, na casa dos milhões de garrafas por ano. A colheita também muda conforme o rótulo: os primeiros quatro produtos do portfólio, entre eles o Nature, o Método Tradicional, o Extra Brut Unique e o Brut Unique, são colhidos manualmente, enquanto os demais passam por colheita mecânica.






O almoço harmonizado no Macerado Bistró – Casa Viñamar
Depois da degustação, fomos ao restaurante da casa, o Macerado Bistró, comandado pelo chef Carlos González, para um almoço harmonizado. A proposta gastronômica do Macerado é uma homenagem a cozinha honesta, de origem, que fala da terra e do que é local.
Eu achei o conceito do Macerado incrível: na prática, uma viagem gastronômica por todo o Chile. O menu é dividido em cinco linhas: Chile Norte, Chile Central, Chile Sur, Chile Insular e Chile Vegetal, cada uma com pratos que carregam características e ingredientes típicos daquela região do país. E o mais interessante é que dá para montar sua própria combinação, escolhendo passos de menus diferentes.
Na nossa experiência, provamos a entrada, que é igual em todas as linhas, seguida do segundo passo, onde provamos 4 pratos diferentes. Para o terceiro passo, escolhi o Chile Insular, e fechei com a sobremesa (quarto tempo) do Chile Central. Foi uma forma e tanto de literalmente atravessar o país em uma única refeição, sem sair da cadeira.










Fizemos o menu de quatro passos (o restaurante também oferece opções de seis e dez passos), com a Francesca ao nosso lado e também com Cinthia García Cristopulo, responsável pelo turismo na Viñamar. Cada prato veio harmonizado com um vinho diferente do portfólio do grupo, entre brancos, tintos e espumantes.
Manuel nos explicou cada prato e cada harmonização em detalhes, e Héctor entrou em cena literalmente sabrando uma garrafa de espumante no meio do restaurante, um daqueles momentos que transformam um almoço em experiência.
Não é preciso reservar uma degustação completa para conhecer a Casa Viñamar. É possível simplesmente chegar, caminhar pelos arredores e tomar uma taça de espumante no bar da casa principal.
Tem ainda um segundo bar, decorado com uma pedra de lápis-lazúli, uma pedra semipreciosa rara, encontrada em menos de 5 lugares no mundo e o Chile é um desses lugares, sendo a pedra nacional do país. Ali funcionam degustações harmonizadas especiais e com charutos, para quem quer estender a experiência.


Experiências para viver na Casa Viñamar
Além da visita tradicional, a Viñamar oferece experiências mais imersivas através da Terroir Collection, minha curadoria de experiências enoturísticas no Chile.
- Winemaker Experience: você mesmo cria a mistura do seu vinho, participa do engarrafamento, da rolha e da rotulagem, e leva para casa uma garrafa de 375 ml feita por você.
- Cata a Ciegas (degustação às cegas): um percurso sensorial que passa pelos vinhedos, pelo Tasting Hall e pela cava, terminando em um jogo de aromas em grupo, ideal para quem gosta de atividades interativas.
- Tour Premium Wines: começa com o Espumante Método Tradicional Leyda e segue para rótulos históricos da Viña Tarapacá e Viña San Pedro, como o Gran Reserva Etiqueta Azul, o Gran Reserva Etiqueta Negra Carmenère e o Sideral (um blend da Viña San Pedro que eu adoro).
Confira aqui as matérias completas sobre a Viña San Pedro e sobre a Viña Tarapacá, que fazem parte do mesmo grupo da Viñamar – VSPT
Vinícola Tarapacá: 150 anos de história
San Pedro Cachapoal Andes: a vinícola ícone pouco conhecida no Brasil
Se você quiser reservar essa visita (ou incluir a Casa Viñamar num roteiro maior pelos vales chilenos), me chama pelo e-mail contato@conhecendoomundo.com, pelo Instagram @juliajasper_ ou direto pelo @terroircollection. Cuido de tudo, do agendamento à logística do seu dia.
Quer conhecer mais sobre a vinícola antes de decidir? O site oficial da Casa viñamar tem todos os detalhes sobre os vinhos e a propriedade. E se quiser ver essa visita em detalhes, como aconteceu na hora, salvei os stories completos desse dia nos destaques da Terroir Collection, junto com outras postagens sobre vinhos e vinícolas do Chile.
A Casa Viñamar está aberta todos os dias, de segunda a domingo, para visitas de turismo, e também recebe eventos corporativos, working days e casamentos. Além da casa que é preciosa, lindíssima, eles tem um espaço com capacidade para cerca de 900 pessoas sentadas ou 1.500 em formato coquetel. Além de todas as festas e eventos relacionados ao mundo dos vinhos que acontecem nos jardins da propriedade.
A vinícola Viñamar, inclusive é reconhecida nacionalmente por experiências enoturísticas inovadoras, ganhando um prêmio no último ano.
Na loja da vinícola, dá para encontrar o portfólio completo do grupo VSPT com preços preferenciais, além de uma seleção de produtos artesanais locais, uma pequena vitrine da comunidade de Casablanca.









Perguntas frequentes sobre a vinícola Viñamar
Como chegar à Casa Viñamar saindo de Santiago ou do aeroporto? De carro, o caminho é direto pela Ruta 68 em direção a Valparaíso, passando pelo túnel Zapata, que marca a entrada no Valle de Casablanca. Saindo do Aeroporto Internacional Arturo Merino Benítez (SCL), o trajeto também leva cerca de 1 hora. Sem carro próprio, as opções mais práticas são transfer, táxi ou aluguel de veículo, já que boa parte das vinícolas do valle fica fora do centro da cidade. A Terroir Collection também organiza a logística completa desse roteiro. Lembrando que no Chile eles tem tolerância zero para beber e dirigir.
Dá para visitar a Casa Viñamar em um bate e volta saindo de Santiago? Dá, sim. Com cerca de 1 hora de viagem em cada sentido, é possível combinar passeio pelos vinhedos, degustação e almoço no Macerado Bistró no mesmo dia. Em alta temporada, vale reservar a degustação e o restaurante com antecedência. Fale comigo para organizar seu roteiro e transporte para você poder aproveitar o dia como merece.
A Viñamar, no Valle de Casablanca, produz só espumantes? Sim. É uma das poucas vinícolas do Chile 100% dedicada a espumantes, com um portfólio de 12 produtos, do Método Tradicional ao Brut Nature e passando por espumantes sem álcool.
Preciso reservar para visitar a Casa Viñamar? Não é obrigatório para conhecer a casa e tomar uma taça no bar. Mas para degustações guiadas e, principalmente, para o restaurante Macerado em alta temporada, a reserva é recomendada.
Qual é a diferença entre o Método Tradicional e os outros espumantes da Viñamar? O Método Tradicional é o único elaborado pelo método Champenoise, com leveduras da região de Champagne. Os demais rótulos do portfólio da Viñamar são produzidos pelo método Charmat.
Onde fica o Valle de Casablanca? É uma das três sub-regiões independentes da Região Vitícola do Aconcágua (junto com o Vale do Aconcágua e o Vale de San Antonio), entre Santiago e a costa do Pacífico, a cerca de 22 km em linha reta do oceano.
Aqui no blog, na seção Brinde ao Vinho, tem muito mais sobre enoturismo no Chile e no mundo.





