Vinícola Tarapacá: 150 anos de história

São 150 anos de história da Vinícola Tarapacá dentro do Valle do Maipo, uma Casona de 1927 que virou símbolo estampado em cada rótulo Gran Reserva, e uma relação com o Chile que atravessa gerações.

A Vinícola Tarapacá nasceu em 1874, fundada por Francisco de Rojas y Salamanca, e batizada inicialmente como “Viña de Rojas”, em homenagem a ele. Somente dois anos depois de fundada, em 1876, já colecionava reconhecimento internacional.

O nome que conhecemos hoje, porém, veio de uma história bem particular. A propriedade passou pelas mãos de Antonio Zavala, que a rebatizou de “Viña Zavala”. Depois de uma separação, ela ficou com sua esposa, Mercedes Ulloa, como parte do acordo e foi ela quem deu à vinícola o nome definitivo, em agradecimento ao advogado que a representou no processo, Arturo Alessandri, apelidado à época de “El León de Tarapacá”. O apelido do advogado virou o nome da vinícola. Além de advogado, ele também foi um dos políticos mais importantes do Chile, se tornando posteriormente duas vezes presidente do País.

A Tarapacá é queridinha dos chilenos. Não à toa, 50% da produção fica dentro do próprio país (um número bem expressivo se comparado a outras vinícolas do Chile). Tem família chilena que bebe Tarapacá há gerações, passando a preferência de pai para filho. O restante da produção viaja para fora, com destaque para Brasil, México, Estados Unidos, Canadá, República Tcheca e Finlândia.

E a propriedade em si é de tirar o fôlego. A Casona de estilo toscano, construída em 1927, está cercada por jardins com espécies nativas, um verde denso que contrasta com as fileiras intermináveis de vinhedos ao fundo, e a Cordilheira dos Andes como moldura em qualquer direção que você olhe. Não é exagero dizer que dá vontade de ficar sentada ali, num banco qualquer do jardim, só olhando o entorno e apreciando uma bela taça de vinho.

O Terroir da vinícola Tarapacá e processo de produção

A primeira coisa que impressiona quando você entende a escala da Tarapacá é o tamanho: são 2.600 hectares de propriedade, dos quais 611 hectares estão efetivamente plantados com vinhedos. A Tarapacá faz parte do grupo VSPT – Viña San Pedro Tarapacá, sendo o segundo maior grupo exportador do Chile e líder em vendas de vinhos engarrafados no mercado chileno, figurando entre os 20 maiores produtores do mundo.

Leia também a matéria sobre outra vinícola que visitamos do mesmo grupo VSPT – a San Pedro Cachapoal Andes – a vinícola ícone pouco conhecida no Brasil.

O terroir é resultado direto da geografia ao redor. A Cordilheira dos Andes forma uma barreira natural que protege os vinhedos, enquanto o Rio Maipo desce das montanhas e ajuda a moldar o solo. Ao longo de milhões de anos, a água do degelo foi formando planícies de drenagem rápida, com solos pedregosos e argilosos. Dentro da propriedade existem 7 perfis de solo diferentes, o que já explica por que os vinhos daqui têm tanta variação de personalidade dependendo do lote, da parcela em que estão plantados.

Tem ainda um detalhe, o Oceano Pacífico fica a apenas 40 km dali, e as brisas frescas e neblinas matinais que vêm do mar também entram na equação climática, junto com o rio e as montanhas. O Valle do Maipo tem quatro estações bem definidas, chuvoso no inverno, seco no verão, com boa oscilação térmica entre dia e noite e é exatamente essa combinação que permite tanta diversidade de castas amadurecendo bem no mesmo lugar.

Para os vinhos Gran Reserva da Tarapacá de rótulos dourado, azul e negro, as uvas usadas vem exclusivamente do Fundo El Rosario de Naltahua, dentro do próprio Valle do Maipo, onde fica a propriedade principal. Mas para as uvas de clima mais frio,  como Sauvignon Blanc, Chardonnay, Pinot Noir, Riesling e Syrah, a Tarapacá também tem vinhedos em Casablanca e Leyda, dois dos valles mais relevantes do Chile pra esse perfil nas últimas décadas.

A adega é dividida em “naves” e cada uma delas mantém uma temperatura específica, ajustada para o tipo de uva que está sendo trabalhada ali dentro no momento. A parte industrial não faz parte das visitas na Vinícola Tarapacá, como por exemplo o prédio com as “naves” onde fazem a vinificação e a sala de barricas.

A produção total gira em torno de 20 milhões de litros por ano, entre colheita mecânica e manual, sendo que cerca de 75% da produção é de vinhos tintos.

Uma curiosidade: a República Tcheca é o único mercado que recebe espumantes com o rótulo Tarapacá, todos os outros países recebem espumantes através de outra vinícola do próprio grupo VSPT, a Viñamar. Outra curiosidade é que os vinhos Rosé e os feitos com a uva Pinot Noir não ficam no Chile, são produzidos somente para o mercado externo.

Vale mencionar ainda o projeto de reflorestamento nativo que rodeia os vinhedos: eles plantam dentro de outras variedades, o espino, árvore nativa chilena que retira nitrogênio da terra e ajuda a manter as videiras mais saudáveis, reduzindo a necessidade de defensivos contra pragas. E, falando em sustentabilidade, a vinícola opera com hidrelétrica a fio d’água (de passo), gerando 100% da energia que consome de forma renovável. Acho isso incrível!

Gran Reserva Vinícola Tarapacá – Entendendo os rótulos mais especiais

A linha Gran Reserva Tarapacá nasceu da tradição centenária da vinícola, é a linha de mais qualidade e elegância, que carrega a Casona estampada no rótulo além da gravação em relevo na própria garrafa.

O portfólio é dividido em quatro etiquetas, cada uma com uma personalidade própria:

Gran Reserva Etiqueta Azul é um blend de Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon e Syrah, em proporções que mudam a cada safra e que só é produzido em anos considerados incríveis. Passa 18 meses em barrica e mais 1 ano em garrafa antes de ser liberado, o que resulta numa entrada elegante, sem pressa, com potencial de guarda de até 15 anos.

Gran Reserva Etiqueta Negra é o melhor Cabernet Sauvignon da casa, até então. (Será que o novo etiqueta dourada vai roubar a cena?).  Um vinho clássico, resultado de um percurso pelos melhores vinhedos dessa casta, com potencial de guarda de cerca de 10 anos. Dentro dessa etiqueta também existe uma versão 100% Carménère e um dos grandes destaques da linha.

Gran Reserva Etiqueta Blanca é elaborada com as melhores uvas ao longo de toda a bacia do Rio Maipo, e carrega o que a própria vinícola chama de “savoir faire” da Tarapacá. Vinhos atuais, versáteis, mas com raízes fincadas na vitivinicultura chilena.

E tem uma novidade!  Enquanto escrevo essas linhas, a Tarapacá está lançando a Etiqueta Dorada, o novo posto mais alto da casa, acima da Etiqueta Azul. Um Cabernet Sauvignon 2023 que a própria vinícola descreve como o legado mais precioso da marca, e que já nasce com 97 pontos e o título de “Vinho Revelação” da Descorchados 2026 logo na sua safra de estreia.

O processo por trás dele mostra bem por que carrega esse peso todo. A colheita foi feita manualmente, nas primeiras horas do dia, em caixas de 14 kg para preservar o frescor das uvas. Na adega, passou por seleção de cachos e depois de bagas, uma quebra bem sutil antes da fermentação, e uma maceração a frio entre 10°C e 12°C por 72 horas, etapa que ajuda a extrair cor e aroma sem pressa.

O amadurecimento também é cuidadoso: 16 meses divididos entre fudre de carvalho austríaco de 6 anos (46%), cuba de concreto (38%) e barricas francesas de segundo uso (16%), uma combinação pensada pra dar estrutura sem deixar a madeira dominar o vinho. A produção é limitada, só 7 mil garrafas, segundo reportagem do Simples Vinho sobre o lançamento, o que explica parte do peso simbólico desse rótulo.

Toda essa propriedade é conhecida como Fazenda Tarapacá e o tour de degustação que fizemos contemplou exatamente essa linha Grand Reserva, a mais alta expressão da casa. Se quiser conferir o portfólio completo, o site oficial da Viña Tarapacá traz todos os rótulos em detalhe.

A visita e o tour

O bom atendimento da Tarapacá começa logo na portaria e quando chegamos a Casona, Gabriela Fernández e Claudia Díaz nos receberam com um grande sorriso. Começamos com um café no hall da Casona, a construção de estilo Toscano que hoje é o símbolo da vinícola.

No caminho entre a Casona e os vinhedos, cruzamos também com o jardineiro responsável por manter aqueles jardins impecáveis. Aproveitei para pedir algumas informações e ele parou para me explicar com todo cuidado.

Mais à frente, encontramos o chef Richard, colhendo temperinhos frescos direto da horta da propriedade, os mesmos que, pouco depois, apareceriam nos pratos do nosso almoço.

É esse tipo de detalhe, repetido por cada pessoa que cruza o seu caminho, que transforma uma visita técnica numa experiência de verdade.

Depois de percorrer a propriedade e os vinhedos, voltamos novamente a casa histórica da Vinícola Tarapacá para a degustação que também foi conduzida pela Gabriela, e não vou chamar de “degustação guiada” porque foi bem mais que isso, foi uma masterclass. Ela explicou cada aroma, cada camada sensorial, mostrou a evolução do vinho dentro taça e ainda harmonizou com queijos ao longo da prova.

Provamos 1 Etiqueta Azul Red Blend e dois vinhos Etiquetas Negras, sendo um 100% Carménère e o outro 100% Cabernet Sauvignon.

Degustação dos vinhos Gran Reserva harmonizados com queijos e nosso almoço de 4 tempos também com vinhos Gran Rerseva pensados para cada prato específico.

Gabriela nos contou que o próprio enólogo chefe, Sebastián Ruiz, passa cerca de 3 meses provando e ajustando o blend do Etiqueta Azul até ficar satisfeito. O objetivo dele, nas palavras dela, é claro: um vinho que não seja agressivo, que tenha elegância, complexidade e personalidade marcante, imponente, mas sem ser agressivo.

Por trás de todos esses vinhos, o enólogo lidera a equipe responsável pela linha Gran Reserva e por todas as linhas varietais e reserva da casa.

Depois da prova veio o almoço harmonizado, servido em quatro tempos — aperitivo, entrada, prato principal e sobremesa — quem cuidou de tudo foi o Pedro, com muita atenção a todos os detalhes. E o almoço veio com mais uma rodada generosa: provamos mais três vinhos, dessa vez uma seleção de Gran Reserva Etiqueta Blanca e Gran Reserva Etiqueta Negra, cada taça pensada pra acompanhar um momento específico da refeição.

Como visitar a Vinícola Tarapacá 

O passeio que fizemos é o Tarapacá Enthusiast — Tour, Degustación & Almuerzo, com duração de 3 horas, contemplando o tour pelo parque e vinhedos, a degustação dos três Gran Reserva e o almoço em quatro tempos que contei acima.

A vinícola fica em Isla de Maipo, a cerca de 50 km de Santiago e o trajeto de carro leva, em média, entre 45 minutos e 1 hora, dependendo do trânsito e de onde você está na cidade.

Uma coisa que preciso destacar: o tour da Tarapacá não é em massa. Gabriela deixou bem claro que a experiência pode ser feita de forma privativa ou com pouquíssimas pessoas, o que muda completamente a qualidade da visita. Não é aquele roteiro corrido de vinícola grande; é intimista, no seu tempo, com espaço pra perguntar e realmente entender o que está na taça.

Esse é, aliás, um dos roteiros que passou a integrar a nossa curadoria enoturística, porque é exatamente esse tipo de experiência que faz sentido dentro da Terroir Collection: não é só provar vinho, é entender o lugar por trás dele.

Se você quiser reservar essa visita (ou incluir a Tarapacá num roteiro maior pelos vales chilenos), me chama pelo e-mail contato@conhecendoomundo.com, pelo Instagram @juliajasper_ ou direto pelo @terroircollection. Cuido de tudo, do agendamento à logística do seu dia.

Você já provou algum rótulo da Tarapacá? E aí, já tem vontade de experimentar a Etiqueta Dourada, que acabou de chegar ao mercado?

Saúde, amor e trilhão em euros!


Dica: no Instagram @TerroirCollection_ você acompanha os vídeos dessa visita. E aqui no blog, na seção Brinde ao Vinho, tem muito mais sobre enoturismo no Chile.

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Júlia Jasper - Conhecendo o Mundo com Julia - Terroir Collection - Vinícola Tarapacá

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